"Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos, mas também pelo que deixamos de fazer." (Molière, dramaturgo francês) Ah! Neste d...

O último suspiro

"Não somos responsáveis apenas pelo que fazemos,
mas também pelo que deixamos de fazer."
(Molière, dramaturgo francês)
Ah! Neste derradeiro momento, lembro-me dos tempos de outrora. Das grandes aventuras, dos obstáculos e, principalmente, dos ensinamentos de minha árdua passagem pelo mundo terreno. Estou feliz, pois as lembranças, em sua maioria, são boas. Apesar de tudo, consegui cumprir meu intento e contribui um pouco com meus irmãos.
Lembram-se da minha infância, quando divertia a todos com tropeços e quedas ao tentar desvendar os segredos de uma simples bola, quando tirava todos do sério durante as aulas. Mas o tempo passa, vem a juventude e todos aqueles problemas, a revolta, as primeiras dúvidas quanto aos meus verdadeiros progenitores. Mas, vocês não mentiram, talvez porque sabiam dos planos Dele.
Realmente a juventude foi um dos principais empecilhos, especialmente nos idos de 70, quando a intolerância ultrapassava os limites e acabava com a esperança de milhares. Mãe. Consegui viver mesmo diante de tanta dificuldade. Venci o medo e talvez por isso, tenha escolhido minha profissão. Achava que tinha uma visão privilegiada dos fatos, por não concordar com aquelas atrocidades e pelo sonho de dias melhores. Ainda que muitas vezes desacreditado, almejei a paz e busquei a verdade.
Todavia não poderia me esquecer das paixões, mesmo que as primeiras experiências tenham sido muito frustrantes, não pela inexperiência, mas sim pela clara exaltação do amor que sentia naqueles momentos de tão íntimo desejo. Gostaria de dar um abraço terno para a querida Laíse, que em um dia nublado, apoderou-se de uma garrafa de vinho barato e levou-me aos céus, pôs-me nas estrelas e com seus olhos de lua crescente dividiu comigo aqueles momentos.
Juntamente com o fim da adolescência, as responsabilidades tomaram meu tempo, obrigando-me a dividir o dia em três etapas: trabalho, faculdade e minha cama. Quase não pude suportar as exigências de alguns professores e o início de carreira como colaborador de jornais. As exigências pareciam cada vez maiores e as primeiras pressões, como já era de se esperar, começavam a perturbar. A vida parecia não ter mais motivação, todas as minhas esperanças eram consumidas pelos “donos do poder”, que indiretamente diziam como deveríamos agir.
Entrei em desespero. Todos trabalhos e profissionais sendo censurados. Pessoas passando por interrogatórios somente por tentarem dizer a verdade. Neste momento, mãe, que conheci a pessoa mais importante de minha vida: uma senhora muito abatida, mas que possuía uma preciosa mensagem, que segundo ela, foi especialmente feita para mim. Nunca mais me esquecerei daquele momento, quando aos prantos, a senhora sussurrou em meu ouvido: “Deus espera a verdade de você, essa é sua missão.”
Logo iniciei uma nova etapa em minha vida e passei a escrever através de uma linguagem diferenciada. Mudei de estratégia e comecei a denunciar através de folhetos, bilhetes, músicas e arte as mais repugnantes ações.
O tempo passou e continuei a ser perseguido. Mesmo agora, após ser atingido por dois tiros e estando em um leito de hospital, convivo com ameaças. Lutei, muitas vezes, contra tudo e contra todos, mas acredito em minha vitória. Mãe, espero ter levado verdade em tudo o que fiz, mas ainda tenho uma confissão: amo você e ao meu pai e, sempre tive a certeza de seu amor.
Texto publicado no portal http://www.comunique-se.com.br/ no dia 21/11/05

2 comentários:

Mauro Cardin disse...

Sempre te acompanhei, meio que de longe, por causa da diferença de idade, mas jamais deixei de ler seus textos. Que bom que agora vc tem um blog!, aqui estarei praticamente todos os dias. Este ano tive a esperança de que você finalmente entrasse na política, mas isso AINDA não aconteceu. Parece pra mim que sua história em Adamantina está apenas começando. E vai ser uma boa e longa história, tenho certeza. Abração.

Everton Santos disse...

Professor, obrigado pelo apoio e incentivo.
A política é algo constante, faz parte de nossas atividades, por isso, me candidatar (ou não) é apenas um detalhe para um cidadão que luta por sua cidade e população. Posso colaborar de outras formas, mas não descarto a possibilidade futura de ingressar na política partidária.

Obrigado pela visita!

Abraços

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